O que é o dinheiro?
Para entendermos o que faz uma economia devemos aprender o que criou ela, o dinheiro.
A princípio, pensamos no dinheiro como a nota de papel que guardamos na carteira ou nos números que aparecem no saldo da nossa conta do banco, mas dinheiro não é necessariamente isso. Posso ser um pouco óbvio, mas ‘dinheiro’ pode ser tudo aquilo em que agregamos valor. Para entendermos melhor, usarei a história.
Em meados do século 17 houve a primeira bolha especulativa da história (sim, é possível agregar valor em algo - somente por mera especulação), na Holanda o botânico Carolus Clusius, vindo da Turquia, introduziu algo que ficou bem famoso entre os endinheirados: as tulipas. O mercado de vendas e compras de tulipas floresceu (rs) em níveis inimagináveis, até aparecer algo inesperado, um vírus. Mais tarde, chamado de TBV (Tulip Breaking Vírus), quando contaminava uma tulipa, deixava a flor fraquinha e danificava o pigmento dela. Em contrapartida, o vírus deixava as flores mais bonitas, com listras brancas, leitosas, entremeando a pigmentação da flor. Ruim para as tulipas, ótimo para os humanos. Esse vírus, porém, só atacava as plantas de vez em quando, o que tornava essa variedade um tipo raro, exclusivo. Tão exclusivo que ganhou um nome pomposo, semper augustus, e com ele um preço enorme. Em 1624, um botão custava, em florins holandeses1, o mesmo que uma casa em Amsterdã.
E esse nem era o auge da bolha, em 1636, a semper augustus subiu 300%, de 2 mil para 6 mil florins. Com as tulipas do tipo mais comum, houve uma subida ainda maior, de 20 para 225 florins - mais de 1.125%. O vírus era algo raro, então só afetava as tulipas em raras ocasiões, porém para os nobres, bastava ser tulipa que já estava valendo. O mercado estava pegando fogo, assim que você comprasse uma tulipa, independente do valor, sempre aparecia alguém oferecendo um preço maior. Mas os preços ali já não tinham mais a ver com a demanda pelas tulipas como artigo de luxo, afinal, não haviam tantas pessoas afim de pagar uma mansão em uma florzinha para exibir aos amigos. A quantidade de gente assim é finita, não havia mais um consumidor final para valer. As pessoas só compravam por valores extorsivos na esperança de que surgisse alguém “mais otário” lá na frente, disposto a pagar mais ainda por elas. Mas otários também são um recurso finito, logo começaram a faltar compradores e assim começou o fim da primera bolha do mundo.
Com isso dá para entendemos melhor o que é dinheiro, é um mecanismo engenhoso que permite que a manicure compre seis pães sem ter que fazer as unhas do padeiro e o jardineiro compre carne sem ter que cortar a grama da casa do açougueiro - em suma, não é uma troca de favores ou serviços, e sim de algo que ambos valorizam2. E resume-se a essência desse algo em uma palavra: Fé. A fé que você vai conseguir trocar esse papel que você tem na carteira ou os números que aparecem na conta do seu banco por coisas para comer, vestir e morar. Porém dinheiro só é dinheiro se obedece a dois critérios:
Ser uma coisa que todo mundo quer ou necessita.
Não ser algo muito abundante. Se não for escasso, não vale nada. E, se não vale nada, não é dinheiro.
Água, por exemplo, não dá para viver sem, então ela cumpre muito bem o critério 1. Só que ela não obedece o critério 2 - é só ir na beira de um rio ou a torneira da cozinha para pegar o quanto quer. Muito abundante para que ela sirva como dinheiro. Mas se pensarmos na comida que por boa parte da história foi um elemento escasso da humanidade, ela se encaixou nos dois critérios por um longo tempo, sendo assim usada como “moeda de troca”, não só antes da invenção da moeda, mas antes do surgimento do ser humano. Os chimpanzés estão aí para provar. Os machos dão carne para as fêmeas em troca de amor. Não é exatamente um comércio, no estilo toma lá, dá cá. Dividir o resultado da caça com as macacas é um dos agrados dos machos para tentar conquitá-las. Trata-se da comida, a moeda mais antiga do mundo, pagando pelo serviço mais antigo do mundo.
Espero que a leitura tenha uma interpretação fácil, abordarei mais sobre o assunto em outras postagens, pois é extenso (acredite).
O florim ( holandês : gulden ) foi a moeda dos Países Baixos de 1434 até 2002, quando foi substituída pelo euro .
Não necessariamente dinheiro ($), tendo em vista que nem sempre existiram moedas ou cédulas.
